terça-feira, 9 de maio de 2023

Vítima das complicações de um câncer, cantora teve hits que marcaram gerações.



O sonho de Rita Lee era ser imortal, com saúde para gozar no final – mas, se por acaso morresse do coração, isso era apenas um sinal de que tinha amado demais. De qualquer forma, ela garantia: enquanto estivesse viva e cheia de graça, talvez ainda fizesse um monte de gente feliz. E, de fato, fez milhões de pessoas felizes, ao longo de uma vida abreviada aos 75 anos, neste terça-feira. Rainha do rock brasileiro, a mais debochada das feministas do país, uma das mais bem-sucedidas compositoras do pop em português, defensora de todas as liberdades e voz que não se limitou a estilos ou gerações, Rita Lee deixa biografia e obra, estas sim, imortais.

Nascida na véspera de Ano-Novo de 1948, em São Paulo, em uma família de descendentes de imigrantes norte-americanos e italianos, Rita Lee Jones cresceu no bairro da Vila Mariana, onde viveu até o nascimento de seu primeiro filho, Beto. Durante a infância, teve aulas com a pianista clássica Magdalena Tagliaferro. Enquanto isso, ouvia o rock de Elvis Presley, Neil Sedaka, Beatles e Rolling Stones e as vozes brasileiríssimas de Cauby Peixoto, Angela Maria, João Gilberto e Emilinha Borba.

Na adolescência, nasceram o interesse de Rita pela música, suas primeiras canções e o primeiro grupo, só de garotas: as Teenage Singers, fundado em 1963. No ano seguinte, elas conheceram o trio masculino Wooden Faces, e os dois se juntariam para formar o Six Sided Rockers, mais tarde renomeado de O’Seis. Em 66, o sexteto gravaria um compacto com as músicas “Apocalipse” e “O suicida”. Com a saída de três integrantes, sobraram Rita e os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias. Eles partiram então para formar um novo grupo, Os Bruxos, que, por sugestão do cantor e ídolo da jovem guarda Ronnie Von, passou a se chamar Os Mutantes.

Em 1967, a banda despontou no cenário ao acompanhar o baiano Gilberto Gil no III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, na canção “Domingo no parque”. Em 68, já bem integrado ao movimento tropicalista de Gil e Caetano Veloso, Os Mutantes lançaram seu primeiro LP, uma explosão de criatividade que décadas mais tarde seria reconhecido como um dos maiores discos da era psicodélica. Cantora da banda e também compositora (junto com os irmãos Dias Baptista), Rita fez das suas primeiras traquinagens ao caracterizar-se de noiva (com um vestido emprestado pela atriz Leila Diniz do figurino da novela “O Sheik de Agadir”) para defender com os Mutantes a canção “Caminhante noturno” no Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho.

Depois de “Mutantes” (1969), “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado” (1970), “Jardim Elétrico” (1971) e “Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets” (1972), discos que fizeram dos Mutantes a grande banda do rock brasileiro da sua geração, Rita Lee foi expulsa da banda por Arnaldo Baptista, àquela altura seu ex-marido. Com dois LPs solo na bagagem (“Build up”, de 1970; e “Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida”, de 1972, que era para ter sido dos Mutantes), ela não se fez de rogada: formou com a amiga Lúcia Turnbull a dupla de folk-rock As Cilibrinas do Éden e depois o seu próprio grupo, o Tutti Frutti, com o qual enfim chegaria ao sucesso a bordo do LP “Fruto proibido” (1975), dos hits “Agora só falta você”, “Esse tal de roque enrow” e a balada (que muitos acreditaram autobiográfica) “Ovelha negra”. Nascia ali a Rainha do Rock Brasileiro. 

Alex Silva



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